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Produtores no backstage da música – do estúdio ao show

Artigo de Ugo Mello

Quando estamos na frente de um palco, vendo aquele artista ou banda que “faz um som” que nos deixa arrepiados, não nos passa pela cabeça todas as atividades e profissionais envolvidos para que aquele show se torne realidade. Ok, tudo bem, hora do show é hora de show, é o momento de sentir e curtir! Ainda assim é importante saber: para que seja possível a realização desse acontecimento, além dos músicos ali em cena, um show precisa, antes, do empenho organizativo de vários profissionais, sob a tutela de um deles – o produtor.

No campo da música – assim como na das outras linguagens artísticas – uma diversidade de profissionais estão envolvidos e atuam de forma articulada para que um produto cultural seja planejado, viabilizado e executado. Seja para a realização de um show, a filmagem de um clipe ou a gravação de um CD em estúdio, são necessárias as funções de roadies, fotógrafos, técnicos de som e de luz, assessores de imprensa, produtores, etc. só para citar alguns. Já vimos em outro texto publicado aqui no Guia de Produção do Rock sobre o que seria a produção musical e foi possível entender o que é e o que faz um produtor musical.

É importante, portanto, fazer uma pequena distinção de função e atuação dos produtores culturais que atuam no planejamento, coordenação e execução de shows – chamados também, nesse contexto da música, de produtores executivos – e dos produtores musicais.

O produtor executivo do contexto da música é o produtor cultural que, geralmente, tem como função principal o gerenciamento dos shows da banda ou do artista. Para tanto ele tem que entrar em contato com casas de show ou demais locais apropriados, acompanhar a divulgação junto ao assessor de comunicação e de imprensa, fechar parcerias e patrocínios, supervisionar montagem de palco junto com técnicos e roadies, garantir o acesso do público, dentre tantas outras atividades.

Já o produtor musical tem como função um papel de participação, acompanhamento e crítica quanto ao processo de criação artística da banda ou artista. Esse profissional não apenas opina no estilo musical da banda, como também participa da escolha do repertório, seleciona composições de letra e de música, além de interferir e fazer a intermediação do processo artístico no que se refere à escolha de melhores acordes, na feitura dos arranjos, etc. O produtor musical tem que dialogar com gravadoras, estúdios e músicos, e para isso deve ter conhecimento necessário para contribuir com a produção fonográfica do artista ou grupo na realização da obra musical, o disco.

Também se faz importante diferenciar as funções do produtor musical e do produtor fonográfico. De acordo com sites especializados, o produtor fonográfico é a pessoa física ou jurídica que gerencia e tem responsabilidade pela produção da obra fonográfica (CD ou DVD), detendo, portanto, os direitos contratuais da mesma. Sendo assim, o produtor fonográfico – entendido aqui como a própria gravadora – é quem autoriza a gravação, reprodução, venda, retransmissão, etc. desse produto, e estabelece a relação profissional entre autores, compositores, editores e produtores musicais que trabalharam no fonograma.

Podemos dizer, portanto, de forma simplista, que o produtor executivo (produtor cultural) está para a realização do show assim como o produtor musical e o produtor fonográfico (gravadora) está para a criação do disco. Contudo, é importante observar que esses limites, muitas vezes, podem ser bastante tênues. Num contexto onde a cadeia produtiva da música seja menos complexa não é raro ver profissionais lidando tanto com o processo de produção da obra musical quanto da realização de um concerto. Desde que, para isso, se tenha expertise e traquejo que permita atuar tanto numa atividade quanto na outra.

Formação de produtores
A função intermediadora e organizativa exercida pelos produtores culturais existe desde que arte e cultura passam a ser criadas, produzidas e consumidas de forma mais complexa pela humanidade. Esses papéis eram exercidos – e muitas vezes hoje ainda são – por artistas, interessados, agentes culturais de todos os tipos, que contribuíam com as atividades de organização, planejamento, acompanhamento de ações culturais e artísticas.

Dos tempos modernos aos contemporâneos, onde a profissionalização de diversas áreas perpassa por formações específicas, não é raro ver diversos profissionais de áreas correlatas (ou não) à arte e a cultura exercerem a função de produtores culturais. São pedagogos, jornalistas, historiadores, músicos, publicitários, atores, engenheiros, dentre tantos outros, que se aproximam da produção cultural por afinidade ou, até, por acaso. Adentrar o contexto profissional da produção cultural se dava essencialmente por convivência com o meio e por muita prática. Contudo, é possível perceber que essa dinâmica tem mudado cada vez mais.

A partir da década de 1990, com a conformação e complexificação que o campo cultural passa no Brasil é que surgem os dois primeiros cursos de nível superior (graduação) com a proposta de formar produtores culturais: são os cursos de Bacharelado em Produção Cultural, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ) e o Bacharelado em Comunicação – Produção em Comunicação e Cultura na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador (BA). Ambos os cursos surgem com mesma proposta, ainda que em contextos diferentes: a de oferecer uma formação para àqueles que desejam atuar profissionalmente como produtores culturais. Desde 1995/1996, surgiram outros cursos com o mesmo objetivo em outras universidades, instituições e regiões do país. Essas formações pretendem desenvolver profissionais que compreendam a dinâmica cultural, em suas várias vertentes, para que possam atuar com políticas, marketing e comunicação, planejamento, projetos, etc. além das várias linguagens artísticas, de forma ampla.

A formação específica de produtores musicais e fonográficos também começa a surgir e ser ofertada por instituições de ensino pelo Brasil, mais recentemente. São cursos de caráter mais técnico e que atendem as demandas específicas dessas atuações profissionais. São contemplados, portanto, conhecimentos específicos de história, teoria e prática musical – que possibilitam a atuação profissional dos alunos como produtores musicais –, assim como disciplinas de direito e administração – que permitem atuarem como produtores fonográficos, empresários, donos de gravadoras. Para o contexto da produção musical do rock, vale ressaltar o curso de graduação tecnológica (com duração de 03 anos) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul (RS), que começou como um curso de ‘Produtores e Músicos de Rock’ e a partir de 2011, após uma reformulação e acréscimos na carga horária, passou a ser um curso de Produção Fonográfica.

Tanto para quem deseja ser produtor cultural (e atuar como produtor executivo da música) quanto para àqueles que pretendem atuar como produtor musical ou fonográfico é importante notar que o mercado de trabalho e o campo estão, cada vez mais, se complexificando. Antes, para se trabalhar nessas áreas era necessária uma aproximação informal com a profissão e, às vezes, muitos anos de prática. Hoje as formações permitem outra forma de entrada nesse mercado, uma vez que possibilitam a esses novos produtores que cheguem fundamentados e articulados com os saberes, e tem o intuito de qualificar o campo profissional. E, dessa forma, fazendo com que o show, o som, e a música continuem a tocar.

Cursos de Produção Cultural

tabela 1

Cursos de Produção Fonográfica (Produção Musical)

tabela2

Ugo Mello

Produtor cultural graduado pela Faculdade de Comunicação da UFBA, atualmente Mestrando em Educação pela Faculdade de Educação da UFBA, e sócio-diretor da 5ENTIDOS Cultura e Comunicação. Pesquisa sobre a questão da formação dos profissionais que atuam no campo organizativo da cultura – a formação dos produtores culturais – em seus diversos contextos. Estuda Canto e Música nas horas vagas e sobe nos palcos de vez em quando.

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