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Duas ou três coisas que aprendi desde um dia qualquer de setembro de 1984

Artigo de Chico Castro Jr.

“Quem tá no rock é pra se fuder”.
Cezar Vieira, guitarrista da banda brincando de deus.

Antes de tudo, um aviso a você, roqueiro com pretensões de artista: se você acha que está pronto para o sucesso (essa ilusão) e se considera genial demais para ouvir conselhos por que acha que já sabe tudo, pode parar de ler este texto aqui mesmo. Ele não foi escrito para você. É, pare. Solte isso e ponha as mãos na cabeça. Não, brincadeira.

Ah, você ainda está aí? Então é com você mesmo que eu quero falar. É, você que gosta de rock, tem (ou quer ter) uma banda, mas ainda não sabe direito como as coisas funcionam.

Vamos começar com uma coisa bem básica que os acabrunhados indies, especialmente os de segunda geração – além dos seus equivocados herdeiros, os emos – nunca entenderam: se você se propõe a subir em um palco, você tem que – necessariamente – dar espetáculo.

Daí a sensação de tédio absoluto que assalta os shows de rock de dez, quinze anos para cá. Ninguém – por mais seu amigo que seja – aguenta muito tempo assistindo a um “show” em que não apenas os músicos não se comunicam com a plateia, como fazem de conta que ela não está lá.

Não adianta argumentar que “Kurt Cobain isso”, “Billy Corgan aquilo” ou “Ian Curtis aquilo outro”. Kurt, Billy e Ian são (foram) gênios – privilégio restrito a 0,0000000000001 da humanidade. Assim, até que uma vendagem de milhões de cópias ou sua entrada no Hall da Fama do Rock ‘n’ Roll confirmem isto, você – é, você mesmo, que está lendo isto – não é gênio de coisa nenhuma. Por mais que sua mãe, namorada ou amigo puxa-saco te digam o contrário.

Portanto, faça um favor a si mesmo e aos pobres frequentadores de shows de rock desta cidade: a menos que você, de fato, seja um artista, NÃO COMETA A ESTUPIDEZ DE SUBIR NO PALCO PARA FICAR DE CARA AMARRADA E FAZENDO CHARMINHO DE GÊNIO INCOMPREENDIDO.

Não compreenda mal este jornalista. Não é minha intenção podar as pretensões artísticas de ninguém.

Mas, ao mesmo tempo, é necessário entender uma coisa: o palco é um terreno sagrado. É o equivalente ao altar para o padre, ao palanque para o político e ao púlpito para o orador.

É ali que você, necessariamente, tem de dar tudo de si.

É ali, que, necessariamente, você terá de assumir o papel de seduzir todas as pessoas que estão na sua frente. É, todas elas. Sejam duas, duzentas, duas mil ou duzentas mil pessoas.

Na Bahia, aonde a arte de entreter plateias foi estuprada e distorcida de forma vulgar (para não dizer criminosa) pelo poder estabelecido da axé music / pagode, é complicado falar disto.

Aqui, praticamente não há mais cantores. Estes foram reduzidos a um bizarro e disforme cruzamento de animador de auditório de programa de televisão com professor de ginástica aeróbica.

Desta forma, é muito fácil para um cantor baiano cair na vala comum do “tira o pé do chão”. Mas qualquer pessoa que disponha de um único e mísero olho nesta terra de cegueira e escuridão total chamada Bahia, consegue ir além disso com facilidade.

Estudem os clássicos. E quando digo “clássicos”, isso inclui de Frank Sinatra ao Kiss, passando por Elvis, Little Richard, David Bowie, Iggy Pop, Fred Mercury, Mick Jagger, Dave Lee Roth, Nei Matogrosso, Marcelo Nova, Rita Lee, Johnny Rotten, Bruce Springsteen, Bono, os verdadeiros grandes nomes do entretenimento de qualidade.

É nesses que você tem que se espelhar. Não aceite ídolos de segunda ou terceira mão (ou seja, da década de 90 para cá). Se espelhe nestes aí. Identifique sua vertente e vá fundo.

Não se preocupe se no início o pessoal disser que você está copiando ou muito parecido com fulano ou sicrano. É normal. Ninguém parte do nada para alguma coisa. É preciso uma referência, um ponto de partida para se criar um estilo próprio.

(E mesmo que, se, depois de alguns anos, seu estilo próprio não tiver emergido, assuma que é imitador e forme uma banda cover porradona. Quanta gente boa sobrevive disso? Não é indigno – desde que feito com honestidade e amor).

Resumindo: o importante, se você realmente pretende se embrenhar neste terreno pantanoso e de difícil acesso chamado rock ‘n’ roll, são três coisas:

1. Só se meta a subir em um palco se tiver algo a dizer. Ninguém está interessado no seu vazio existencial ou na sua necessidade de atenção. Antes de faze-lo, certifique-se de que tem talento o bastante para isso. Já há meninos amarelos equivocados demais nesse negócio.

2. Se você mora na Bahia, portanto, não espere reconhecimento – nem rápido, nem tardio. Simplesmente não espere nada. Faça seu som por que te dá prazer ou por que é divertido e você consegue reunir sua galera. E mesmo assim, fique avisado: serão muitas as noites de decepção, com plateias minúsculas e bode generalizado. Faça sua música para 2 ou 200 pessoas com o mesmo entusiasmo e tesão. É isso que faz o boca a boca acontecer.

3. Se comunique com o público. Crie algumas frases de efeito divertidas para usar entre uma música e outra. Conte piadas, reclame da vida com bom humor, peça – mas não force – a participação da plateia, mostre a ela que você pode olhar cada um dos espectadores no olho e leva-los a esquecer o mundo lá fora, nem que seja por meia hora. É isso (além de boas canções, claro) que vai fazer alguém querer ver outro show da sua banda.

É óbvio que tudo isto que escrevi até agora é opinião minha, o que (acho) aprendi desde um dia qualquer de setembro de 1984, quando ouvi o Iron Maiden pela primeira vez e tudo mudou na minha vida.

Agora, vamos ao lado realmente prático da coisa. Como jornalista que cobre mais ou menos essa área, sou abordado por todo tipo de bandas. Boa parte delas ainda não sabe como abordar a imprensa e o que é preciso para divulgar sua música.

As palavras mágicas são duas. Não, não é “por favor”. Primeira palavra: release. Segunda: fotos em alta resolução. (Ops, foram cinco, desculpe).

Release. Se você acha que não vai saber escrever direito, peça a alguém que saiba. Não é muito difícil. Em poucas palavras, o que não pode faltar em um release é isso, anota aí: nome da banda, um breve histórico, de onde é, nomes dos integrantes (e o que cada um faz na banda), há quanto tempo ela existe, proposta, estilo, gêneros que ela cobre (ex: rock, metal, mpb, funk, xaxado, folk do leste europeu etc), feitos e planos (shows, turnê, gravações, clipe etc). Tudo em poucas palavras, Rapidinho. Uma lauda (ou seja, de 25 a 30 linhas). Como você sabe, jornalista é um bicho afobado, sem muito tempo a perder. Se você escrever um release catatau com 500 páginas, sabe quantos jornalistas vão ler seu release inteiro? Zero. Então, seja econômico, mas informativo. Seja objetivo.

Agora, fotos em alta resolução. São ideais para divulgação em veículos impressos. Nenhum jornal, revista, guia de fim de semana ou o que seja vai publicar sua foto se ela não tiver, no mínimo, 300 DPI de resolução na imagem e pelo menos, 15 X 25 centímetros de tamanho. Na verdade, o ideal é 20 X 30 cm. Quanto maior, melhor. (Não me pergunte a parte técnica. Só sei que os números são estes).

Quando for ligar – ou mandar um email ou um sinal de fumaça, twitter ou o que for – para um jornalista, tenha um fato objetivo a dizer. Um show, uma viagem para fazer um show, uma gravação, um edital aprovado, um lançamento de CD (ou clipe ou o que seja).

Enfim, isso é só o começo. Se você tiver sorte e talento (hoje em dia é preciso ter os dois, camarada), seus desafios seguintes serão muito maiores e complicados do que tudo isto que escrevi até aqui. Mas isso é outra história. Dê seu primeiro passo e seja feliz com suas escolhas.
E nunca se esqueça das sábias palavras de Fábio Cascadura, no seu imorredouro hino O Batismo: Rock’n’Roll seja sempre assim / Seja cruel pra ele quanto foi pra mim / Bem vindo ao mundo do Rock ‘n’ Roll / Um dia assim alguém me falou / Esse é um ciclo que se faz / Desde o Rithym’n blues / Quando um roqueiro se vai / Logo vem outro / Pra acender as luzes / Eu preciso avisar você / Desse caminho que vamos entrar / Nunca mais vai poder voltar”.
Só serve se for assim, amigo(a). Vai encarar?

Chico Castro Jr.

Jornalista formado pela Facom - UFBA e repórter do Caderno 2+ do jornal A Tarde desde 2007. Assina uma coluna semanal dedicada ao rock e à música independente local desde 2008. Quando perguntam sobre o que ele realmente gosta de escrever, a resposta é: "rock e quadrinhos". Mas como jornalista, é pau pra toda obra e faz o que cai na pauta: literatura, cinema, teatro, televisão, política cultural, artes plásticas, debate de ideias, dança, gastronomia, jardinagem e armas de destruição em massa.

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